O que é síndrome do sotaque estrangeiro?

Uma noite em 2016, Michelle Myers – uma mãe do Arizona com um histórico de enxaquecas – foi dormir com uma dor de cabeça terrível. Quando ela acordou, sua fala estava marcada com o que parecia ser um sotaque britânico, apesar de nunca ter saído dos Estados Unidos. Myers é uma das cerca de 100 pessoas em todo o mundo que foram diagnosticadas com Síndrome do Sotaque Estrangeiro (SSE), uma condição na qual as pessoas falam espontaneamente um sotaque não nativo.

Na maioria dos casos, a Síndrome do Sotaque Estrangeiro ocorre após um ferimento na cabeça ou derrame que danifica partes do cérebro associadas à fala.

Uma série de incidentes recentes de SSE foram bem documentados: uma mulher da Tasmânia chamada Leanne Rowe começou a falar com um sotaque que parecia francês após se recuperar de um grave acidente de carro, enquanto Kath Lockett, uma mulher britânica, se submetia a um tratamento para um tumor cerebral e terminava falando com um sotaque que soa entre francês e italiano.

O primeiro caso da síndrome, então sem nome, foi relatado em 1907, quando um homem nascido e criado em Paris que sofreu uma hemorragia cerebral acordou falando com sotaque alsaciano.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o neurologista Georg Herman Monrad-Krohn compilou o primeiro estudo de caso abrangente da síndrome em uma mulher norueguesa chamada Astrid L., que foi atingida na cabeça por estilhaços e posteriormente falou com um pronunciado sotaque que soava alemão.

Monrad-Krohn chamou seu distúrbio de fala de disprosódia: sua escolha de palavras e construção de frases, e até mesmo sua habilidade de cantar, eram todos normais, mas sua entonação, pronúncia e ênfase nas sílabas (conhecidas como prosódia) haviam mudado.

Em um artigo de 1982, o neurolinguista Harry Whitaker cunhou o termo “síndrome do sotaque estrangeiro” para desvio de sotaque adquirido após uma lesão cerebral. Com base em Monrad-Kohn e outros estudos de caso, Whitaker sugeriu quatro critérios para diagnosticar SSE [PDF em inglês]:

“O sotaque é considerado pelo paciente, pelos conhecidos e pelo investigador como um som estrangeiro. É diferente do dialeto nativo do paciente antes do insulto cerebral. Está claramente relacionado a danos ao sistema nervoso central (em oposição a uma reação histérica, se houver). Não há nenhuma evidência no histórico do paciente de ser falante de uma língua estrangeira (ou seja, isso não é como os casos de afasia poliglota). “

Nem todas as pessoas com SSE atendem a todos os quatro critérios. Na última década, os pesquisadores também encontraram pacientes com SSE psicogênica, que provavelmente se origina de condições psicológicas como a esquizofrenia, em vez de uma lesão cerebral física. Essa forma compreende menos de 10 por cento dos casos conhecidos de Síndrome do Sotaque Estrangeiro e geralmente é temporária, enquanto a Síndrome do Sotaque Estrangeiro neurogênica costuma ser permanente.

O QUE ESTÁ REALMENTE ACONTECENDO?

síndrome do sotaque estrangeiro
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Embora os cientistas não tenham certeza de por que certas lesões cerebrais ou problemas psiquiátricos dão origem à síndrome, eles acreditam que as pessoas com SSE não estão realmente falando com um sotaque estrangeiro.

Em vez disso, seus danos neurológicos prejudicam sua capacidade de fazer movimentos musculares sutis na mandíbula, língua, lábios e laringe, o que resulta em uma pronúncia que imita o som de um sotaque reconhecível.

“As vogais são particularmente suscetíveis: a vogal que você diz depende de onde sua língua está na boca”, escreveu Lyndsey Nickels, professora de ciência cognitiva da Universidade Macquarie da Austrália, em The Conversation. “Pode haver muita ou pouca tensão muscular e, portanto, eles podem ‘ultrapassar’ seu alvo. Isso faz com que as vogais soem diferentes e, às vezes, podem soar como um sotaque diferente.”

Em “Foreign Accent Syndromes: The Stories People Have to Tell” (Síndrome de sotaque estrangeiro: as histórias que as pessoas têm de contar – em tradução literal), os autores Nick Miller e Jack Ryalls sugerem que a síndrome pode ser um estágio em uma recuperação multifásica de um distúrbio de fala mais grave, como afasia – uma incapacidade de falar ou compreender a fala que resulta de danos cerebrais.

Pessoas com a síndrome do sotaque estrangeiro também apresentam grande variação em sua capacidade de pronunciar sons, escolher palavras ou enfatizar as sílabas certas. O sotaque pode ser forte ou suave. Ouvintes diferentes podem ouvir sotaques diferentes do falante com SSE (Lockett disse que as pessoas lhe perguntaram se ela é polonesa, russa ou francesa).

De acordo com Miller e Ryalls, poucos estudos foram publicados sobre a fonoaudiologia para o tratamento da SAF, e não há evidências reais de que a fonoaudiologia faça diferença para as pessoas com a síndrome. Mais pesquisas são necessárias para determinar se técnicas avançadas como a articulografia eletromagnética – feedback visual mostrando pequenos movimentos da língua – podem ajudar as pessoas com a síndrome a recuperar sua maneira original de falar.

Hoje, uma das questões urgentes para os neurologistas é entender como o cérebro se recupera após uma lesão. Para esse propósito, Miller e Ryalls escrevem que “SSE oferece um fórum fascinante e potencialmente frutífero para obter maiores insights sobre a compreensão do cérebro humano e os processos de fala que definem nossa espécie.”

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