A mensagem aos reféns colombianos escondidos em uma canção

Em 2010, o Exército colombiano enfrentava uma crise de reféns bastante grave, com vários grupos de soldados sequestrados mantidos como reféns por guerrilheiros armados das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Mas calma, essa história tem um final feliz com a mensagem aos reféns colombianos escondidos em uma canção!

As FARC enviaram algumas imagens granuladas ao coronel do Exército colombiano José Espejo, um cavalheiro de fala direta que estava se aposentando após 22 anos de serviço.

Alguns dos soldados colombianos foram reféns por mais de 10 anos. Pior ainda, isso podia ser visto nas imagens que muitos sofriam de doenças comedoras de carne, transmitidas por picadas de insetos. O coronel Espejo não suportava a ideia de se aposentar com seus homens ainda sofrendo com o cativeiro.

Então ele entrou em contato com o único homem que sempre forneceu uma solução sólida para seus problemas no passado: o lendário publicitário colombiano Juan Carlos Ortiz.

Ortiz alcançou a fama por suas campanhas publicitárias antidrogas na Colômbia, ganhando um Leão de Ouro em Cannes e ganhando uma comenda da primeira-dama da Colômbia.

Os anúncios antidrogas de Ortiz lhe renderam a ira das FARC no passado, já que o tráfico de drogas era uma parte importante de sua operação. Na verdade, Ortiz havia se mudado para Nova York com sua família após persistentes ameaças de morte da organização paramilitar.

Então, quando o coronel Espejo ligou para Ortiz, ele ficou muito feliz em ajudar.

Era um fato conhecido que as FARC executaram reféns ao primeiro sinal das tropas colombianas, então o Coronel Espejo teve que enviar uma mensagem para eles estarem prontos para agir de alguma forma. E foi aí que Ortiz entrou em cena.

Campanhas anti-FARC anteriores de Ortiz

Ortiz já havia projetado publicidade irregular e campanhas de divulgação direcionadas às FARC antes. Em 2008, o Exército colombiano lançou por via aérea 7 milhões de chupetas na selva acompanhadas de uma mensagem dirigida às guerrilheiras: abandonem seus filhos e retornem à civilização.

Durante o período de férias, o exército iluminou gigantescas árvores de Natal por toda a selva, como forma de lembrar aos guerrilheiros o que estavam perdendo.

Eles também escreveram mensagens encorajando a paz nas bolas de futebol e as levaram rio abaixo para serem encontradas pelos insurgentes.

Porém, desta vez a campanha publicitária teria que ser diferente, mais complexa.

Ortiz montou uma excelente equipe de anunciantes colombianos. Junto com o coronel Espejo e outros militares, todos eles debateram a melhor maneira de enviar uma mensagem aos reféns.

Como eles poderiam enviar uma mensagem sem que os captores suspeitassem?

A grande questão para todos nas sessões de brainstorming era como? Como poderiam enviar uma mensagem sem que os captores suspeitassem e executassem os que aguardavam o resgate?

O coronel Espejo sabia que os guerrilheiros das FARC permitiam que seus reféns tivessem rádios. Isso ajudava a distraí-los durante longas caminhadas de base a base e evitava que suas mentes pensassem em fugir.

Por muito tempo, as comunicações de rádio com os reféns eram uma regularidade na Colômbia, com o programa de rádio “Voices of Kidnapping”.

Foi transmitido na Rádio Caracol de Bogotá, dando às famílias de pessoas sequestradas uma plataforma para enviar mensagens a seus entes queridos por meio de ligações especiais.

Ortiz pensou em esconder uma mensagem em um comercial de rádio, nas letras miúdas dificilmente inteligíveis de leitura rápida no final do anúncio.

Então, o anunciante Alfonso Diaz teve uma ideia melhor: e o código Morse?

Não seria a primeira vez que o código Morse seria usado para se comunicar com os reféns, ou vice-versa, e Ortiz era totalmente a favor.

Ortiz descreveu a sugestão de Diaz como “um momento eureka!” dizendo “Pensamos em esconder o Código Morse em um anúncio. Então pensamos, que tal uma música?”

Nos bastidores da música secreta

Quando jovem, Ortiz começou sua carreira como músico, embora nunca tenha ido a lugar nenhum. Então Ortiz estava muito ansioso para escrever um novo hit.

Ortiz apresentou a ideia ao Coronel Espejo, que gostou porque sabia que muitos dos soldados capturados conheciam o código Morse, pois eram do Departamento de Comunicações do Exército.

Além disso, os rebeldes das FARC não tinham treinamento militar e não detectariam o código Morse.

Em um estúdio de gravação, a equipe começou a brincar com onde colocar o código Morse, experimentando instrumentos de percussão e um teclado.

Eles descobriram que os especialistas em código Morse costumam ler 40 palavras por minuto. No entanto, quando aceleradas, as 40 palavras em código Morse soavam como uma faixa de dança e não eram compreensíveis.

Depois de um tempo experimentando, a equipe musical descobriu que 20 palavras era a quantidade ideal de palavras para passar despercebida, mas também ser clara o suficiente para ouvir.

Com a ajuda de um policial militar habilitado em código Morse, eles conseguiram esconder uma mensagem de 19 palavras no refrão da música. Levou semanas para entender a mensagem certa e integrá-la à música, mas agora eles conseguiram: “19 pessoas resgatadas, você é o próximo. Não perca a esperança.”

Além disso, a letra também chamou a atenção para o código Morse e o resgate iminente, com alguns dizendo “No meio da noite / Pensando no que mais amo / Sinto necessidade de cantar / Do quanto eu sinta falta deles”, além de adicionar a letra “Ouça esta mensagem, irmão” antes que a mensagem comece.

A mensagem simples em código Morse soou simplesmente como um breve interlúdio de sintetizador após o refrão para o ouvido desavisado.

Dias melhores

A música, intitulada “Better Days” (Dias melhores), agora estava pronta para ir.

Embora as estações de rádio colombianas tendam apenas a tocar música pop famosa como Coldplay ou Shakira, todas as estações de rádio na selva onde as FARC eram baseadas eram controladas pelo governo colombiano.

A música foi tocada em 130 pequenas estações de rádio e ouvida por 3 milhões de pessoas.

Ironicamente, a música se tornou um grande sucesso nas áreas da selva densamente povoadas pelas FARC e seria ouvida várias vezes ao dia.

Um grande sucesso


Junto com uma operação de Comando em andamento, a Operação Camaleão, a música ajudou a dar a inúmeras quantidades de reféns o sinal para se moverem e escaparem quando os soldados estivessem por perto.

Em todo o interior da Colômbia, os “Dias Melhores” ajudavam as pessoas a escapar de anos de cativeiro.

Alguns reféns conseguiram escapar e até mesmo ajudar os outros reféns a escapar.

O coronel Ortiz se aposentou das forças armadas enquanto as FARC perdiam e libertavam sequências de reféns nas costas da Operação Camaleão e Dias Melhores, tornando-se jornalista e ainda mantendo contato com Ortiz.

Em 2011, o Exército colombiano desclassificou a Operação “The Code” e permitiu que a música fosse incluída no prêmio Cannes daquele ano, onde ganhou o Leão de Ouro.

Quando ganhou o prêmio por seu anúncio anti cocaína em 2000, Ortiz não gostou muito, pois só comprou para ele e sua família ameaças de morte e perigo.

No entanto, desta vez, quando os Dias Melhores arrebataram aquele Leão de Ouro, ele pôde se orgulhar de seu trabalho.

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